Brasília por trás do cartão-postal

por acm

Muito se discute sobre a falta de infraestrutura em Brasília para receber os grandes eventos esportivos que batem à porta: a Copa das Confederações e a Copa do Mundo de 2014. Apesar de ser uma questão oportuna, acredito ser valioso analisar a situação em sua totalidade: será que o potencial turístico da capital do país está sendo bem aproveitado?

Quando me deparo com o número de pessoas que visitam grandes capitais sul-americanas, como Buenos Aires e Montevidéu, pergunto-me como Brasília, sendo uma cidade com projeto arquitetônico e urbanístico inovador, ainda atrai tão poucos turistas. De acordo com dados da Secretaria de Turismo do Distrito Federal, em torno de 1 milhão de brasileiros e estrangeiros passam pela nossa cidade anualmente. Na capital portenha, somente o número de visitantes internacionais equivale ao dobro desse montante.

Com um currículo de capital do país que é a sexta economia do mundo, Brasília poderia estar no topo do ranking de circulação de turistas, ao menos da América Latina. Mas quando aprofundo minha análise sobre a cidade encontro o seguinte quadro: agentes públicos despreparados – que não dominam sequer uma segunda língua -, sinalizações precárias, falta de conservação dos monumentos, pouquíssimas opções de transporte para visitantes, aeroporto sobrecarregado, inexistência de publicação sobre os pontos turísticos, escassez de leitos e uma frota de táxi pequena, com altos preços.

Uma das boas iniciativas, que foi a de criar um ônibus para city-tour semelhante aos de Londres e de Nova York, partiu de um shopping, que viu uma falha na recepção dos visitantes. Paralelamente a isso, quando o empresariado tenta fazer a sua parte, é prejudicado pela burocracia estatal. A liberação de alvarás e autorizações para novos empreendimentos, em conformidade com a lei e com o projeto urbanístico de Brasília, chega a demorar meses. Isso apenas afasta os investidores. O Estado deveria incentivar ações como essa e não inviabilizar bons projetos.

Também tive uma triste surpresa ao descobrir que só existem 45 profissionais cadastrados como guias turísticos do Distrito Federal no Ministério do Turismo, o que é irrisório perto da demanda aqui existente. As autoridades e o poder público precisam tomar providências, ir além das medidas paliativas e passar a investir em ações concretas e duradouras, para que o turista vá e volte. Dessa forma, aproveitaremos melhor o nosso potencial. Sentir-se bem-vindo em um local é a chave para o retorno.

O serviço oferecido em Brasília ainda carece de ajustes, e ratifico que os comerciantes e o setor produtivo como um todo devem preparar seus funcionários para receber bem os turistas. Isso requer mais do que aulas de inglês. Precisamos capacitar as pessoas para serem receptivas, educadas e pacientes. A fama de povo acolhedor que temos deve ser vista em Brasília, o que inclui sermos atenciosos nos preços e na prestação de serviços.

Em sintonia com essa necessidade, o Sistema S atua de forma segmentada para preparar o trabalhador e as empresas. O Senac, por exemplo, capacita para os setores de comércio e serviços, com a oferta de cursos profissionalizantes com foco nos grandes eventos que irão ocorrer. O Senai capacita para a indústria. O intuito do Senac é formar 16 mil alunos e inaugurar sete pontos de gastronomia até a data dos jogos. Estão sendo ofertados cursos de formação inicial e continuada, como para recepcionista de hotel e camareira, além de cursos técnicos baseados nas oportunidades de emprego que surgirão até 2014.

Brasília carece de investimentos como um todo, mas a impressão que fica é a de que essa deficiência é devastadora, sobretudo, na área do turismo. A falta de interesse e criatividade por parte do Estado na hora de propor soluções denota um desleixo ainda maior com a população, que paga um preço muito alto para morar numa cidade com infraestrutura precária. Ainda que seja em razão da Copa do Mundo ou das Olimpíadas, qualquer movimento do governo local para mudar esse quadro será muito válido. Senão, continuaremos a ouvir lá fora que a capital do Brasil é Buenos Aires.

 

Publicado originalmente no Correio Braziliense 30/06/2012

 

Brasília, 30 de Junho de 2012

 

Adelmir Santana Presidente do Sistema Fecomercio-DF